Da alimentação ao espetáculo: a cultura do desperdício

Quando a abundância vira status

Hoje, no café da manhã, escolhi comer ovos com pão integral, frutas com chia e tomar café. Para mim, essa foi uma escolha entre diferentes opções. No entanto, sei que essa não é a realidade de muitas famílias brasileiras. Para uma parcela da população, a primeira refeição do dia depende do que existe em casa ou da ausência de alimentos.

Essa comparação nos faz refletir sobre privilégios e sobre a forma como a abundância de comida aparece nas redes sociais.

 

É comum encontrar vídeos de hambúrgueres gigantes, pizzas cobertas por muito queijo, sobremesas enormes e mesas repletas de pratos. Quanto maior o exagero, maiores parecem ser as chances de conquistar curtidas e compartilhamentos.

O problema surge quando o alimento deixa de ser o protagonista e passa a ser apenas um recurso visual. Em muitos vídeos, são compradas quantidades maiores do que seria possível consumir. A pessoa experimenta um pouco e o conteúdo termina sem mostrar o destino daquela comida. Nem sempre isso significa desperdício, mas a mensagem costuma valorizar a abundância e o impacto visual.

No meu Instagram, compartilho reflexões sobre como esses conteúdos podem influenciar nossa fome, nosso corpo e nossa relação com a comida. 

Imagem extraídas de @ojoaobiondi

Veja aqui 

Ter muita comida e não comer

Talvez o novo padrão de ostentação não seja apenas ter acesso a muita comida. O status também pode estar em mostrar toda aquela abundância e, ainda assim, recusar o alimento.

A cena se repete: uma mesa cheia, uma mulher dentro do padrão de magreza e vários alimentos desejáveis. Ela prova uma pequena quantidade, diz que está satisfeita ou deixa o restante.

Essa imagem comunica duas ideias. A primeira é a abundância: posso comprar tudo isso. A segunda é o controle: mesmo diante de tanta comida, consigo não comer.

Para quem assiste, a comparação surge rapidamente. Por que ela consegue parar e eu continuo pensando nessa comida? Será que me falta autocontrole?

Comparação e pensamentos compulsivos

A exposição repetida a grandes quantidades de comida pode aumentar a vontade de comer e a preocupação com a alimentação. Isso não significa que um vídeo provoque automaticamente perda de controle. A resposta depende da relação que a pessoa já possui com a comida.

Para quem vive em restrição, segue regras rígidas ou considera alguns alimentos como proibidos, esses conteúdos podem ocupar ainda mais espaço mental. Quanto maior a tentativa de fazer dietas, mais intensos podem se tornar os pensamentos sobre comida.

Fonte: Época, gastronomia e estilo.

Enquanto uma mulher magra aparece recusando uma mesa cheia, quem assiste pode sentir desejo de comer tudo aquilo. A comparação passa a envolver não apenas o corpo, mas também fome, saciedade e controle.

A pessoa pode acreditar que sentir vontade é sinal de fraqueza. No entanto, esse desejo pode estar relacionado à fome acumulada, à privação, à culpa ou à alimentação insuficiente.

Em alguns casos, forma-se um ciclo. A pessoa vê o excesso, sente vontade, restringe mais e depois come com urgência ou em uma quantidade maior do que gostaria. Em seguida, surgem culpa e novas promessas de controle.

Isso não é simplesmente falta de força de vontade. Muitas vezes, o excesso de controle aumenta a preocupação com a comida.

Se você passa grande parte do dia pensando no que vai comer, tenta compensar refeições ou se compara com outras pessoas, o acompanhamento nutricional pode ajudar e muito. 

Para saber como posso te ajudar, envie uma mensagem em meu Whatsapp. 

Um olhar mais crítico

A sociedade costuma associar corpos magros a disciplina, saúde e sucesso. Nas redes sociais, essa ideia ganha força quando pessoas magras exibem muita comida e mostram que conseguem comer pouco.

Porém, não é possível conhecer a saúde, a rotina alimentar ou a relação de alguém com a comida observando apenas um vídeo. Comer pouco diante das câmeras não significa ter uma relação tranquila com a alimentação. A fome varia conforme rotina, sono, atividade física e refeições anteriores. Saciedade não deveria ser competição.

A comida não deveria ser símbolo de ostentação, e a recusa alimentar não deveria ser apresentada como prova de superioridade. Em um país marcado pela desigualdade, precisamos questionar o que essas imagens provocam em nós. Alimentar pessoas e construir uma relação respeitosa com a comida sempre será mais importante do que impressionar uma audiência.